Segundo a filosofia yogi, o Ser possui 3 corpos, como foi visto no artigo precedente – Os 3 Sharira, e possui também 5 kosha (“camadas”, “invólucros” ou “baínhas”) que se encontram relacionados com eles e que guardam o Self ou Atman (nosso ser mais elevado). Estas camadas são concêntricas e partem do aspecto mais denso para o mais subtil da consciência, tal como o Sanctum Santorum num templo. Usando outra analogia, estas camadas contém outras camadas no seu interior, como uma boneca matrioska, sendo as camadas mais externas os corpos que guardam as camadas mais subtis (de fora para dentro).

Annamaya Kosha – Invólucro de Comida
A primeira camada diz respeito ao Corpo Físico, Sthula Sharira, que nasce, cresce, muda, decai e morre. É uma camada externa, feita de matéria viva, visível e palpável, que inclui a pele, os ossos, os músculos, os órgãos e o tecido conjuntivo. O corpo denso, produto de comida, ao concluir o seu ciclo de vida, irá regressar à terra, na morte, e por sua vez servir de comida a outros seres, repetindo um ciclo biológico interminável.
Segundo Adi Shankara, a camada física é inerte e mutável, sendo apenas o ponto de partida – o campo mais externo do templo do Eu. Sendo vulnerável a transformações e impermanências, o annamaya kosha é anatman – não é o nosso verdadeiro Eu, como por vezes pode ser erroneamente considerado por identificação com o corpo. A base da experiência humana tem origem nesta camada, através da percepção do mundo externo, agindo esta como uma porta de entrada para as camadas mais subtis.
Do ponto de vista da saúde, é importante para o yogi manter o corpo físico saudável, uma vez que é responsável pela nossa subsistência, experiência e interação com o mundo.
Pranamaya Kosha – Invólucro Vital ou Prânico
A segunda camada é a camada prânica, considerada a primeira camada subtil do corpo astral ou Sukshma Sharira. Corresponde à camada energética do corpo, constituída a partir do ar que respiramos e da comida e água que ingerimos (fontes de energia vital). É a camada mais subtil que anima a vida física e atua como ponte entre a camada do corpo e a camada da mente.
É aqui que residem os 5 prana. Este invólucro ajuda a circulação da bioenergia pelo corpo e desempenha um papel fundamental nas funções vitais do organismo como a respiração, a digestão e a circulação. É através dele que experienciamos as sensações de calor, frio, fome e sede, estando associado aos 5 órgãos de ação. Estes 5 pranas são expressões diferentes de uma única força vital. Aqui residem também as nadi e os centros energéticos conhecidos como chakras.
Segundo os ensinamentos tântricos, o Pranamaya Kosha é uma forma como o Atman aparece como movimento e vida (anima). A respiração não é um processo físico nem apenas mental; é um processo que revela inteligência. A prática de pranayama permite-nos escutar como a consciência se move quando se torna forma, percorrendo o caminho como uma forma de passagem para esferas mais subtis.
Manomaya Kosha – Invólucro Mental
Este invólucro situa-se igualmente no Corpo Astral e corresponde à camada mental do Ser, onde os sentimentos, emoções, pensamentos e imaginação são originados, processados e mantidos. É responsável pelas nossas funções cognitivas, como a memória, a percepção e discernimento, emoções e pensamentos.
Segundo a Taittiriya Upanishad, o Manomaya Kosha contém a Pranamaya Kosha, como o seu corpo vital.
A mente é uma expressão da consciência, a zona onde a consciência começa a diferenciar-se das emoções, memórias e pensamentos (fruto da experiência dos 5 sentidos e da interpretação dos 5 órgãos de percepção (ver artigo sobre cosmogénese)).
Dessa forma, sugere-se que o sadhaka, através de práticas de pranayama e meditação, procure diferenciar-se da mente, tornando-se uma testemunha (saksi), reconhecendo que o verdadeiro Eu está além das flutuações mentais (vrtiis).
Explorar este kosha é ver com mais clareza, compreendendo como a consciência se molda através de padrões de atenção e significado.
Vijñanamaya Kosha – Invólucro Intelectual
Invólucro da sabedoria, no Corpo Astral, e o centro das decisões onde o Ego reside. É a camada que nos separa dos animais, onde os homens conseguem discernir sobre o que é certo ou errado, bom ou mau, real de irreal, etc. O intelecto, a intuição e a sabedoria interna fazem parte deste kosha, tornando-o de grande importância para o desenvolvimento e crescimento espiritual da consciência. É aqui que sentimos a união com o Universo.
Se o Manomaya Kosha trabalha os pensamentos e emoções, o Vijnanamaya Kosha é a faculdade que nos permite discernir, orientar e ver claramente, sendo regido pela Buddhi (intelecto). Segundo a Taittiriya Upanishad, esta camada sugere que o conhecimento não é meramente cognitivo, mas é sustentado pela confiança, verdade e integração. O conhecimento aqui não é analítico mas é talhado pela prática e o cultivo do conhecimento. Para a filosofia Vedanta, o Manomaya Kosha é o penúltimo estado para a iluminação, mas ainda contém um rasto de individualidade. Segundo os ensinamentos tântricos, este kosha funciona como uma bússola, sendo o discernimento uma incorporação da consciência universal, ajudando-nos a orientar-nos no nosso caminho sem nos agarrarmos ao Ego.
Durante a prática de meditação, esta camada é reconhecida através da serenidade, calma e pousio.
O Vijñanamaya Kosha estabelece assertividade e capacidade de ponderação antes de agir, atuando como uma inteligência que sabe como escutar.
Anandamaya Kosha – Invólucro de Felicidade
Ananda significa “felicidade suprema”, “beatitude”. Esta camada diz respeito à experiência de um estado de alegria e amor, onde o Atman (o Eu) reside. Faz parte do Karana Sharira ou Corpo Causal e é responsável pelo nosso contentamento, liberdade e expansão de consciência, onde sentimos a relação e conexão com tudo o que existe. Esta camada pode ser percepcionada como uma sensação geral de paz, alegria e unidade, alcançado através do sono profundo, meditação ou de experiências de plenitude geral que ocorrem sem esforço.
Para o filósofo Abhinavagupta, Ananda é o estado do Self, é da nossa natureza estar em realização da felicidade plena, estando sempre presente, e, dessa forma, não é um estado a ser alcançado, mas sim a ser constatado e reconhecido. Para Sancharacharya, existem dois tipos de felicidade – a felicidade de natureza experiencial e a felicidade de natureza real e permanente (estado de Sat-Chit-Ananda).
Referências
Yoga – Mind & Body – Sivananda Yoga Vedanta Center
ArhantaYoga.org
Taittiriya Upanishad
Embodied Philosophy
Tattvabodhah – Sri Sancharacharya – Prof. Paulo Abreu Vieira

