Reflexão sobre a Felicidade

De há uns tempos para cá, tenho vindo a pensar e principalmente a sentir, que o segredo para a felicidade que o Homem tanto busca, poderá estar em simplesmente viver. E se conseguíssemos, no meio da vida atarefada que levamos, em que nos é imposto estar constantemente a executar e a agir sobre o nosso rumo, apenas desfrutar do caminho? Teríamos aí mais felicidade? Ou será que continuaríamos a almejar por algo mais?

A sociedade (e nós próprios, por consequência) impõe-nos metas: Para alcançarmos a felicidade temos de seguir os estudos, tirar um curso e dar-lhe uso, obter a licença de condução e um veículo, encontrar um parceiro(a), comprar uma casa, ter descendentes, ser bem sucedido no emprego, e por aí em diante… Teremos mesmo de viver a nossa vida por etapas, sempre com um objetivo na mira? Ou poderemos apenas viver de forma simples e tranquila, desfrutando do caminho, com contentamento (santosha), gratidão e respeito por nós e pelo mundo? É ótimo termos uma orientação sobre o caminho que queremos seguir, devemos procurar o melhor para nós próprios… Mas não estaremos a elevar a fasquia? Porque como diz a sabedoria popular empírica, “quanto mais buscamos, menos encontramos” e “quanto mais forçamos, menos conseguimos”.

Se estivermos obcecados(as) com determinado objetivo perdemos tudo o resto. Perdemos o acontecimento da vida.
E maior o risco de desilusão, caso os nossos planos não corram bem. A queda pode originar desamparo, desespero e depressão. E caso corra bem? Aí alcançamos esse objetivo e nem sequer o desfrutamos, pois já estamos a pensar no próximo passo da etapa – “Aí sim, serei feliz e concretizado(a)”. É um caminho sem fim.

Há uns meses, estava a dar o meu passeio habitual, e conheci alguém da mesma idade que eu mas com uma vida radicalmente diferente da minha. Uma vivência antagónica: eu com um espírito de fazer acontecer, sair, viajar, realizar e concretizar; e a outra pessoa com uma vida rotineira, tranquila, pacata, acomodada. Fiquei a pensar em como dois seres humanos feitos da mesma matéria, com a mesma idade, a viver no mesmo local, pudessem ter vidas tão díspares. Justifiquei mentalmente com a educação, com o percurso na infância, com o desenvolvimento pessoal, com a personalidade… mas isso não me foi suficiente para encontrar uma resposta mais profunda. Então coloquei-me nos sapatos da outra pessoa – na segurança que a rotina traz. Sem mais nada pedir. Sem nada mais querer ser. Porque o que já existe é suficiente.

Talvez o segredo resida em fazer tudo com amor, carinho, respeito e atenção. Nutrindo cada passo, honrando cada ação do dia-a-dia como se fosse sagrada. Como diz Thich Nhat Hanh, “lavemos a loiça apenas lavando a loiça”, respeitando a ação e com todos os sentidos aplicados na tarefa que estamos a realizar. Pois por si só, isso já é uma experiência total, se estivermos com o nosso foco completamente aplicado no que estamos a fazer. Assim, enquanto estamos a fazer o curso que tanto gostamos, não estamos a pensar no emprego. E quando estivermos no emprego, não estamos a pensar nas férias ou vice-versa. Nos tempos que correm, é cada vez mais difícil estarmos presentes, para nós e para os que nos são queridos. É tudo tão fugaz e rápido que perdemos a oportunidade de experienciar quando estamos com a cabeça noutro lado. Quando dermos conta, o tempo do presente é passado e estamos no futuro. E concluímos que não aproveitámos a vida da melhor forma – não por não termos feito coisas mas por não termos conseguido saborear os momentos.

Convido-vos a realizarem uma experiência: aplicar o mindfullness às tarefas diárias, mesmo as mais básicas, dando atenção total a cada movimento que o nosso corpo faz, a cada feedback externo, aguçando os sentidos e observando o que nos rodeia. Quando estivermos a lavar a loiça, tentemos sentir o que estamos a fazer (sentir a água a correr pelas mãos, o perfume do detergente, o deslizar da esponja nos pratos…). Quando estivermos a cozinhar, sintamos a textura dos alimentos, as cores, os aromas… A conduzir, estejamos focados e alerta…  Façamo-lo em todas as ações da nossa vida.

Cada respiração, cada silvar do vento, cada movimento no espaço ganha importância… sintamos a vida (e a morte) a acontecer na Natureza e no Universo. Talvez não seja uma tarefa fácil de realizar, no início. Mas se conseguirmos mudar o chip, vamos com certeza ser mais felizes e plenos, obter mais controlo e segurar as rédeas da nossa vida.

Om Shanti.


Conceitos-chave:
Mindfullness
Dharma
Equanimidade
Contentamento
Liberdade