YS I.06 a I.11 – Sobre as vrittis

YS 1.06

Pramana Viparyaya Vikalpa Nidra Smritayah

“(Os cinco tipo de padrões de pensamento) são: conhecimento certo, conhecimento errado, fantasia, sono e memória”

 

pramana: meio de conhecimento válido, conhecimento correcto, ver claramente
viparyaya: conhecimento incorrecto ou falso, visão equivocada
vikalpa: imaginação, ilusão, fantasia
nidra: sono profundo
smritayah:
memória, recordação

“Elas são causadas por conhecimento correcto, conhecimento incorrecto, ilusão, sono e memória.”
 – B.K.S. Iyengar – Light on the Yoga Sutras of Patañjali (tradução pessoal direta)

Neste sutra, Patañjali enumera os 5 tipos de oscilações mentais, dolorosas ou não dolorosas, (chitta vritii – como iniciado no sutra anterior) que são necessários refinar para que o objetivo da prática de yoga se estabeleça. São eles: conhecimento correcto e comprovado; conhecimento incerto ou incorrecto; fantasia ou ilusão; sono profundo e memória. Também são de número cinco os estados mentais pelos quais a mente passa até ficar completamente focada e tranquila, como podemos ver no artigo Os 5 Citta Bhumis.

O conhecimento correcto (pramana) transcende o intelecto, é puro e irrefutável, obtido através do âmago do Ser. O conhecimento incorrecto (viparyaya) é algo que obtemos através dos órgão de percepção e que transformado de forma pessoal pela nossa mente. A ilusão (vikalpa) conduz a mente a um estado de fantasia e irrealidade, sem buscar conhecimento válido. Por sua vez, o sono profundo (nidra) proporciona uma pausa no vazio, semelhante ao estado de chitta vritti nirodhah, mas inconsciente. A memória ajuda-nos a preservar experiências.

Cada pensamento gera uma impressão (samskara) que fica gravada no nosso espaço mental/emocional, condicionando futuras ações e formas de interpretar o que nos rodeia. A prática de meditação permite-nos observar esses padrões de pensamento e transformá-los.
Se essa observação não existir ou se as flutuações forem ignoradas, a mente ficará presa num ciclo interminável, automatizado, de estímulo-resposta imediata, e a meditação será muito mais difícil.

 


YS 1.07

Pratyaksha Anumana Agamah Pramanani

“O conhecimento certo vem pela inferência, pela tradição e pela verdadeira cognição“

 

pratyaksha: percepção directa
anumana: inferência, dedução
agamah: escrituras tradicionais védicas, tradição de ensino por mestre comprovado
pramanani: evidência, testemunho, prova, conhecimento correcto

“O conhecimento correcto é directo, inferido ou provado como factual.”
 – B.K.S. Iyengar – Light on the Yoga Sutras of Patañjali (tradução pessoal direta)

Pratyaksha pramani é o conhecimento correcto obtido através dos órgãos dos sentido: Ex: Eu vejo, cheiro e toco uma flor.
Anumana pramani é o conhecimento obtido através da experiência de ocorrências passadas: Ex: Eu vejo fumo ao longe, na montanha, e deduzo que seja provocado por fogo.
Agama pramani é o conhecimento obtido através do estudo, de testemunhos válidos por tuma entidade fiável (guru, professor, especialista).

A memória permite aceder aos arquivos intelectuais para obter informação, outrora provada como correcta através de provas factuais, testemunhos fiáveis, dedução previsível e através do próprio discernimento obtido através do refinamento da mente (manas) até aceder à inteligência de nível superior (buddhi).

Este tipo de conhecimento é o que deve ser mantido e trabalhado, pois é benéfico para a meditação.

 


YS 1.08

Viparyayo Mithya Jñanam Atadrupa Pratistham 

“ O conhecimento errado vem pelas noções falsas, ilusórias e erradas“

 

viparyayah: conhecimento incorrecto, não ver com clareza, cognição irreal
mithya: irrealidade, ilusão, falso
jñanam: conhecimento, sabedoria
atad: a não próprio
rupa:
forma, natureza, aparência
pratishtam:
possuir, ocupar, obter

“O conhecimento ilusório ou irreal é baseado no não-factual e no não-real.”
 – B.K.S. Iyengar – Light on the Yoga Sutras of Patañjali (tradução pessoal direta)

Este tipo de conhecimento é fruto de interpretações distorcidas da realidade, vistas pela lente do próprio, e transformadas em pensamentos e emoções erradas, o que causa confusão na mente. Ex: Confundir uma corda com uma cobra.

Viparyayah pode ser conduzir a avidya, ignorância (do nosso verdadeiro Eu) e é combatido com viveka (discernimento).

 


YS 1.09

Sabda Jñana Anupati Vastu Sunyah Vikalpah

“A ilusão dá origem a palavras sem substância“

 

shabda: som, comunicação oral
jñana: conhecimento
anupati: sequência, sucessão, progressão
vastu: realidade, existência, objecto real
shunyah:
vazio, desprovido de, sem
vikalpah:
fantasia, imaginação

“O conhecimento verbal sem substância origina a imaginação.”
 – B.K.S. Iyengar – Light on the Yoga Sutras of Patañjali (tradução pessoal direta)

Sem provas concretas, sem uma fonte fidedigna e sem conhecimento pessoal directo, o conhecimento verbal é ilusório, vago e irreal, sendo fruto da nossa imaginação. Se, por sua vez, este conhecimento verbal for devidamente comprovado pelos meios acima, pode-se transformar em conhecimento correcto.

Vikalpah indica conhecimento sem objeto ou sujeito, baseado na irrealidade e não existência concreta. É apenas fruto da nossa mente imaginativa. O conhecimento correcto tem um sujeito verdadeiro, o incorrecto tem um sujeito falso e a ilusão não tem sujeito (Swami Satyananda Saraswati – Four Chapters on Freedom).

 


YS 1.10

Abhava Pratyayalambana Vrttirnidra

“O sono profundo é a modificação da mente que tem como substrato o nada”

 

abhava: não existência, sentimento de não-pertença
pratyaya: instrumento, segurança, lei, convicção, sabedoria
alambana:
dependência, suporte
vrtti: função, condição, flutuação mental
nidra: sono sem sonhos

“O sono é a ausência não deliberada de oscilações mentais ou conhecimento.”
 – B.K.S. Iyengar – Light on the Yoga Sutras of Patañjali (tradução pessoal direta)

Nesta condição mental, do sono sem sonhos, o corpo físico, os órgãos dos sentidos e a mente encontram-se em repouso. Não existe presença na mente que possa testemunhar os acontecimentos cognitivos, logo os restantes 4 tipos de vritiis são excluídas. Este estado pode, à primeira vista, parecer semelhante ao estado de samadhi, mas é diferente e incompleto pois este necessita da presença da consciência do observador.
É um estado de inconsciência no qual a mente tem pensamentos mas não possui a capacidade de os perceber, uma vez que não consegue ouvir, ver, pensar ou sentir qualquer tipo de sensação que deles possa decorrer.

 


YS 1.11

Anubhuta Visaya Asampramosah Smrtih

“A memória não permite que as impressões mentais desapareçam”

 

anubhuta: percebido, experienciado, conhecido
visaya: objeto, transação, coisa
asampramosah: não permitindo que escape
smrtih:
memória, recordação, coleção de coisas experienciadas

“A memória é a lembrança não modificada de palavras e experiências.”
 – B.K.S. Iyengar – Light on the Yoga Sutras of Patañjali (tradução pessoal direta)

A memória é uma oscilação mental que permite aceder aos outros tipos de oscilações: conhecimento correcto, conhecimento incorrecto, fantasia e sono. A memória pode ser consciente (recordação de eventos experienciados no passado) ou subconsciente (memória que decorre no âmbito dos sonhos, real ou imaginária) – (Swami Satyananda Saraswati – Four Chapters on Freedom).

São estes os 5 tipos de oscilações mentais classificados por Patañjali nos Yoga Sutra, que podemos reconhecer nos nossos pensamentos.
Nos sutra seguintes, irá ser descrito como podemos refrear estas oscilações, de forma a obter uma mente mais serena, livre de perturbações.

 


Referências:
Light on the Yoga Sutras of Patañjali – B.K.S. Iyengar
Yoga-Sutra – Aforismos de Yoga – Patañjali – Tradução de José Carlos Calazans
Four Chapters on Freedom – Swami Satyananda Saraswati
Yogakulam.org
YogaPro.br