Vrtti Sarupyam Itharatra
“Caso contrário, ele identifica-se com as ondas de pensamento”
vrtii: modificações, oscilações, comportamento, estado da mente
sa: semelhante, identificação
rupyam: forma
itharatra: de outro modo
Recordando o sutra anterior, “Então, aquele que contempla, encontra-se na sua própria natureza”,
– B.K.S. Iyengar – Light on the Yoga Sutras of Patañjali (tradução pessoal direta)
Este sutra, conclui as premissas dos dois sutras anteriores: O Yoga é a aquietação das ondas mentais. Aquele que observa a mente, sem julgar, encontra-se a si próprio. De outro modo, perde-se na imensidão dos seus pensamentos, esquecendo-se de si próprio e da sua importância.
A tendência natural da mente é saltitar entre um pensamento e outro e, dada essa inconstância, o indivíduo deixa-se levar na corrente, reagindo emocionalmente e envolvendo-se cada vez mais nessas ramificações sem fim. O yoga propõe que o indivíduo aja como observador desses pensamentos e que não interaja nem interfira com os mesmos. Os pensamentos podem surgir e o sujeito pode apenas aceitá-los como sendo naturais e deixá-los ir, sem lhes dar grande importância.
É importante perceber a génese dos pensamentos: os objetos do exterior são impressos na mente interna através dos órgãos dos sentidos (ver artigo sobre a cosmogénese segundo o samkhya). A partir do momento em que existe imagem mental desse objeto, citta (a mente) vai tratar de o catalogar com base em experiências passadas, percepções, emoções, pensamentos e informações anteriores, etc. Dessa forma, não só impede de ver o objeto como ele realmente é, sem conotações e interpretações pessoais, provocando uma associação por vezes errónea, como torna o sujeito mais volátil e dependente desses interpretações, impedindo-o de aceder à sua verdadeira essência.
Dessa forma, o sujeito é dominado por essas oscilações e torna-se refém dessa inconstância, ocorrendo separação (o oposto do objetivo do yoga) e provocando sofrimento ao indivíduo, afastando-o cada vez mais do reconhecimento da sua própria essência. Nós somos diferentes dos nossos pensamentos, o nosso verdadeiro eu vais mais além: possui um potencial ilimitado.
Imaginemos que existe um filtro ou uma lente a separar o mundo externo do mundo interno.
Essa lente não possui luz própria mas reflete a nossa luz interna, bem como deixa passar as imagens que vem do exterior. Se a lente estiver suja, danificada ou baça (através da identificação com as vrtiis ), seremos impedidos de ver a realidade como ela é e seremos também impedidos de ver a nossa própria identidade.
Exemplo: Suponhamos que temos uma reunião importante em breve e que estamos ansiosos. Podemos sentar-nos para meditar, mas possivelmente virão surgir pensamentos relacionados a ocasião: “Será que estou preparado/a?” “Quantas pessoas estarão a assistir?” “Já falhei uma vez, será que desta vez vou conseguir?” “Talvez não consiga, nunca faço nada bem…” “O melhor é desistir, sou um falhado/a…” e por aí em diante, envolvendo a pessoa numa espiral de pensamentos derrotistas, fazendo-a envolver-se cada vez mais na cilada criada pela sua própria mente, impedindo-a de brilhar e de se ver a si própria na sua própria natureza inteligente, ilimitada e feliz. Em vez de nos envolvermos com esses (ou outros) pensamentos, podemos optar por deixá-los passar, não lhes dar importância, garantindo a serenidade da mente e confiando na nossa própria essência. A utilização da respiração é bastante útil nesta fase. Podemos usar a expiração profunda para soltar essa ideia ou aplicar um pranayama simples para ajudar no regresso da mente ao seu centro.
Com a prática regular de yoga iremos aos poucos, limpando essa lente e regressando à consciência da nossa verdadeira natureza.
Referências:
Light on the Yoga Sutras of Patañjali – B.K.S. Iyengar
Yoga International

